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sexta-feira, 1 de abril de 2022

Relembrando a adolescência #18 - as farsas da eurodance dos anos 1990

            Postagem especial do dia do trote

A famosa cena do desmascaramento do filme "Cantando na Chuva" ("Singin' In The Rain", Metro-Goldwyn-Mayer, 1952). Na foto, a atriz Jean Hagen (1923-1977) como Lina Lamont dublando a voz de Kathy Selden, personagem de Debbie Reynolds (1932-2016)


Hoje eu vou falar de um dos gêneros musicais que eu particularmente amo de paixão desde os 11 anos de idade, a eurodance/italodance, produzida entre os anos de 1993 e 1999, o período da minha adolescência. Só de ouvir essas músicas já me lembro do primeiro aparelho de som com CD na nossa casa, do meu primeiro passeio a Florianópolis com meus pais e salivo salgadinhos da Elma Chips, especialmente Fandangos, leite com achocolatado em pó, aquele chocolate bicolor da Turma da Mônica... (Acho que eu vou chorar. Risos) Você que viveu essa época já reparou que em quase todos os projetos do gênero são representadas por "cantoras" sempre bonitas e esbeltas? Parece estranho isso, né? Pois é. Já que naquela época não havia redes sociais na internet ou nenhum Padre Quevedo (1930-2019) ou Mister M do universo musical para desvendar esse mistério, o que restava para nós fieis fãs e ouvintes era acreditar no que vimos em videoclipes e apresentações em TV. Porém houve alguns casos em que a verdade foi involuntariamente revelada em pouco tempo de sucesso, como o do duo alemão Milli Vanilli ("do mesmo produtor de Boney M!" Entendedores entenderão. Risos), o projeto belga Technotronic, o americano C+C Music Factory e o italiano Black Box. São as tais farsas da dance music mundial, ou seja, a ideia de usar gatões e gatinhas _alguns deles que nunca cantaram na vida_ para dublarem vozes potentes de cantores de estúdio e olha que nessa época os exemplos não foram poucos. Lá no final da postagem explicarei por quê. Vale lembrar que esta postagem não tem intenção de julgar ou algo parecido, e sim de informar coisas que nem eu sabia. E também fazer relembrar momentos bons que não voltam nunca mais, né, por que não?


Randy Bush


A modelo e cantora Patrizia Cavaliere



Emanuela Berti, a cantora italiana de Florença, conhecida artisticamente como Emy Berti. Você pode nunca ter ouvido falar nesse nome nem nos anos 1990 (e estar se perguntando "e dai?"), mas já ouviu a sua voz nessa década. Ela é a verdadeira RANDY BUSH, projeto no qual foi representado nos palcos e nas capas dos singles pela modelo e cantora italiana Patrizia Cavaliere que não cantava nenhuma música do projeto criado por Nilo Nicolosi (que também foi produtor de Gloria Gaynor, Novecento e Tom Hooker). Conhecido pelas músicas com batidas de techno reggae sampleadas do grupo sueco Ace Of Base, "Randy Bush" fez bastante sucesso especificamente no Brasil em 1995 com as regravações das músicas "Foreign Affair" (de Maggie Reilly e Mike Oldfield, 1983) do músico Mike Oldfield com a participação da cantora Maggie Reilly, "Sounds Like a Melody" (de Marian Gold, Bernhard Lloyd e Frank Mertens, 1984) do grupo Alphaville, "I Love To Love" (de Jack Robinson e James Bolden, 1976) da Tina Charles e a inédita "Elevation" (de Wilko, 1995). Na vinda ao Brasil, Randy Bush, ou melhor, Patrizia Cavaliere se apresentou nos programas Xuxa Hits (Rede Globo) e Raul Gil (TV Record) em algumas vezes ao lado do namorado Daniel Emilio. Patrizia já foi rosto de outros projetos italianos de dance music anglófono, como Trisha (antes de Randy Bush, no início dos anos 1990) e, a partir de 1997, Leslie Parrish cuja verdadeira voz de ambos os projetos é de Clara Moroni_que também foi voz da música "You Belong To Me" (de Alessandro Gilardi, Riccardo Romanini e Walter Cremonini, 1995) do projeto Antares_, porém sua primeira relação com a música foi no grupo Las Mama Chicho, um grupo formado por lindas mulheres com roupas minúsculas. Durante a era Leslie Parrish, Patrizia Cavaliere não pôde vir ao Brasil, afinal ela era o rosto conhecido no país por ser a Randy Bush, ainda mais que os timbres vocais não são nem de perto parecidos e foi aí que a divulgação do projeto se resumiu em apresentações apenas no Japão. Mas Emy Berti não foi a única voz de Randy Bush. Sandy Chambers (sim, a cantora britânica de outros projetos italodance! Mais pra frente falarei um pouco dela) também trabalhou na empreitada de Nilo Nicolosi na regravação de "Giddyap a Gogo" (de Ad Visser, 1982) da dupla indonésia-holandesa Ad Visser & Daniël Sahuleka. Em 2018, Patrizia Cavallieri voltou ao Brasil se apresentando em um programa na TV Difusora (filiada do SBT no Maranhão) com nome de Randy Bush, é claro. Nos shows atuais, ela faz dublagem parcial com a sua própria voz (sim, ela canta também!). "Parcial", porque em algumas músicas ela dubla e em outras ela solta a voz de verdade.
                                        

                    
A cantora Emy Berti, a voz de Randy Bush



 


Vídeo abaixo: a cantora Emy Berti.

   

 Fontes:



Fourteen 14



O Fourteen 14 foi um projeto italiano da eurodance liderado pela ex-DJ e "vocalista" Sabrina Perugini (foto acima). O projeto recebeu o nome de seu número da sorte, 14 e foi produzido por Claudio Malatesti, Gianluca Vivaldi e Riccardo Salani. Sabrina Perugini iniciou sua carreira na indústria da música como DJ profissional em casas noturnas da Itália. Em seguida, Sabrina conheceu Claudio Mingardi que trabalhou com Roberto Zanetti, conhecido artisticamente como Robyx. Em sua vinda ao Brasil, Sabrina Perugini, representando o projeto Fourteen 14, se apresentou nos programas Xuxa Hits da Rede Globo e Raul Gil ("vem aí, Forte Forte!" Risos) na TV Record. É que a gravadora Spotlight Records trouxe ao Brasil, em agosto de 1995, os artistas Lorenz D, Black 4 White, Martine e Fourteen 14, todos de uma vez para uma turnê de 20 shows pelas cidades do país, inclusive Blumenau (SC). Porém, a verdadeira dona da voz de Fourteen 14 era a cantora Alexia, nome artístico de Alessia Aquilani (fácil de reconhecer, não é?), nos singles mais sucedidos "Don't Leave Me" (de Claudio Malatesti, Gianluca Vivaldi e Riccardo Salani, 1994), "Goodbye" (de Gwen Aantti e Roberto Zanetti, 1995) e, para o projeto Due, também representado pela Sabrina na mesma turnê de 1995, a regravação de "Under The Same Sun" (de Klaus Meine, Mark Hudson e Scott Fairbairn, 1993) da banda alemã Scorpions. Alexia na época era parceira do Ice Mc e ambos vieram ao Brasil para se apresentarem no Domingão do Faustão no mesmo agosto de 1995. Curiosamente, o Brasil foi o país fora da Itália onde Fourteen 14 (dentre alguns outros projetos italodance) fez mais sucesso.


A sempre talentosa Alexia.

 

 Fontes:



Fun Factory




Fun Factory é um grupo de eurodance da Alemanha formada em 1993, originalmente composto pela cantora turca Balja (nome real - Balca Tözün), pelo rapper alemão Steve (nome real - Stephan Browarezyk), pelo rapper americano Rod D. (nome real - Rodney Hardison) e Smooth T (nome real - Toni Cottura, que inaugurou o selo Booya Family no qual ele foi produtor de algumas músicas dos grupos 'N Sync e Backstreet Boys). Dessa fábrica de diversão saíram grandes sucessos como "Take Your Chance" (de Bülent Aris, Rainer Kesselbauer, Toni Cottura e Rodney Hardison, 1994), "Celebration" (de Bülent Aris e Toni Cottura, 1995), "Close To You" (de Bülent Aris, Rainer Kesselbauer e Toni Cottura, 1994), "I Wanna B With U" (de Toni Cottura, Rodney Hardison e Zoltan Bender, 1995), "Don't Go Away" (de Bülent Aris, Toni Cottura e Rodney Hardison, 1995) e uma adaptação de "Do Wah Diddy Diddy" (de Jeff Barry e Ellie Greenwich, 1963) do grupo The Exciters, mas que ficou mundialmente famosa na regravação de 1964 da banda inglesa Manfred Mann. Porém, antes do lançamento do terceiro single do Fun Factory, "Close To You", a cantora Balca Tözün (ou Balja) foi substituída pela Marie-Annet Mey, uma animadora e modelo de Paris, França, devido ao fato de a turca ser menor de idade e não poder acompanhar o grupo nas turnês, já que ela ainda estudava no colégio. Como ainda estava sob contrato, Balja tinha que continuar cantando para o Fun Factory e a sua voz nos palcos e nos videoclipes foi dublada pela Marie-Annet que também aparecia na capa dos álbuns e dos singles do grupo. Sem falar que, nos créditos dos álbuns de Fun Factory, a artista francesa fez questão de agradecer à Balja por ter emprestado sua voz a ela. Balja também foi dona da voz das músicas "In My Dreams" (de Bülent Aris e Toni Cottura, 1994) produzida pelo Cottura no projeto Darkness (detalhe: Marie-Annet aparece no videoclipe da música dublando a Balja) e "Don't Stop The Music" (de Ariel Piaggi e Toni Cottura, 1994) do projeto 2 Raff.


Balca Tözün, ou simplesmente Balja, a voz feminina do Fun Factory


 

 Fonte:



Mr. President



Quem foi jovem nos anos 1990 que nunca dançou ao som das músicas "Up 'N Away" (de Kai Matthiesen e George Jones, 1994), "I Give You My Heart" (de Kai Matthiesen, Delroy Rennals e Robin Masters), "Coco Jamboo" (de Kai Matthiesen, Delroy Rennalls e Rainer Gaffrey, 1996) e da regravação de "Gonna Get Along Without Ya Now" (de Milton Kellem, 1952)? O grupo alemão Mr. President que passou por várias formações foi integrado no auge do sucesso  pelo rapper britânico Delroy Rennalls, conhecido como Layzee Dee, e pelas alemãs Judith Hinkelmann, a loira atendida como T-Seven e a ruiva Daniela Haak, a Lady Danii. Inclusive eu fiz uma postagem sobre a música "Coco Jamboo" (clique aqui). Contudo, Layzee Dee, o bendito fruto entre as mulheres, foi o único do trio que usou sua própria voz. A cantora Anne Smith (hoje Anne Schröder) emprestava sua voz à ruiva Lady Danii, inclusive no projeto solo desta. Já a loirinha T-Seven, que já havia posado nua para a revista Playboy com a colega Lady Danii,  dublava a voz da cantora alemã Caren Miller. Assim como a Annerley Gordon, de quem eu falarei a seguir, Caren Miller é uma multitalentosa no backstage da dance music: além de cantora de estúdio, ela é compositora e produtora musical. As próprias Lady Danii e T-Seven até que cantam (inclusive a segunda faz shows acústicos), mas suas vozes não lembram nada o Mr. President. Embora Caren Miller preferisse o anonimato, ela é a voz principal e conhecidíssima do projeto. O motivo dessa escolha, na minha opinião, é compreensível: em uma entrevista, Caren revelou que se sentiria bastante desconfortável ao seguir a típica rotina ultra insana de cantores famosos, viajando de um lado pro outro do mundo. Ou seja, enquanto os integrantes faziam shows aqui e acolá, Caren Miller ficava no estúdio lucrando com os direitos da música, gravando, compondo e produzindo. Mr. President, inclusive, já esteve no Brasil em 1996, no auge do sucesso, se apresentando em programas de TV, como o Domingo Legal do SBT. Sem falar que já naquela época uma revista havia exposto a farsa do grupo, porém os produtores foram a uma rádio lá da Alemanha e tentaram tapar o sol com a peneira dizendo que as vozes eram mudadas com programas de computador, filtros, pedais vocais, etc. Ah, tá. Risos.



A cantora multitalentosa Caren Miller, a voz da T-Seven 


A cantora e compositora Anne Schröder que emprestou sua voz à Lady Danii





Vídeo abaixo: Caren Miller, a voz do Mr. President

 

 Fontes:



Whigfield



"Dee dee na na na..." É Whigfield, minha gente! Projeto italodance liderado pela dinamarquesa Sannie Carlson e criado por Alfredo "Larry" Pignagnoli é superlembrado pelo seu primeiro single "Saturday Night" (de Larry Pignagnoli e Davide Riva) que foi lançado em 1992, mas foi só dois anos depois que virou o tema de verão europeu e fez sucesso no Brasil. Em seguida, veio um hit atrás do outro, como "Another Day" (de Larry Pignagnoli, Davide Riva, Annerley Gordon e Ray Dorset, 1994), "Think Of You" (de Larry Pignagnoli, Davide Riva e Annerley Gordon, 1995), "Sexy Eyes", o techno reggae "Big Time" (ambos de Davide Riva, Larry Pignagnoli, Annerley Gordon e Paul Sears, 1995) e a balada "Close To You" (de Annerley Gordon, Larry Pignagnoli e Davide Riva), uma das mais belas músicas românticas lançadas em 1995. Sannie Carlson, porém, era apenas a frontgirl do projeto, já que a verdadeira dona da voz marcante e de timbre cristalino de Whigfield é a britânica Annerley Gordon, também conhecida como Ann Lee. Multitalentosa, Annerley Gordon é cantora, compositora e produtora musical no universo italodance, inclusive ela foi um dos coautores do hit "The Rhythm of The Night" (1993) do projeto Corona. Emprestou sua linda voz a vários projetos, como TH Express na música "I'm On Your Side" (de Annerley Gordon, Fabio Serra, Mauro Farina e Stefano Colombo, 1994) e Ally & Jo na regravação dance de "The Lion Sleeps Tonight" (de Solomon Linda, Hugo Peretti, Luigi Creatore, George David Weiss e Albert Stanton, 1961). Em sua carreira solo, em 1999, Ann Lee lançou a música "2 Times" (de Larry Pignagnoli, Daniela Galli, Paul Sears e Annerley Gordon) que fez muito sucesso até no Brasil. E quanto à Sannie Carlson, ela só passou a cantar de verdade a partir da década de 2010.


Annerley Gordon, ou simplesmente, Ann Lee.





Vídeo abaixo: Videoclipe de "Two Times" da Ann Lee (Annerley Gordon), a verdadeira Whigfield.

 

 Fontes:


Corona 

A linda e simpática cantora Olga Souza no programa "The Noite com Danilo Gentili" do SBT


Um produtor italiano Francesco Bontempi viu em um bar da Itália uma brasileira chamada Olga Maria de Souza cantando "Garota de Ipanema" (de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, 1962) e descobriu o potencial dessa sempre carismática cantora carioca. Daí a chamou para representar o seu projeto italodance Corona cuja música "The Rhythm Of The Night" (de Peter Wilfred Glenister, Michael Patrick Gaffey, Giorgio Spagna, Annerley Gordon e Francesco Bontempi, 1993) foi sucesso pelos quatro cantos do mundo. Mas percebia-se que depois de "The Rhythm of The Night" as coisas ficavam bem estranhas, ou seja, a voz nas músicas posteriores de Corona estava bem diferente da do primeiro hit. É que a Olga, embora seja cantora de verdade, nunca havia gravado uma música sequer no projeto italiano.  A verdadeira cantora de "The Rhythm Of The Night" é a Jenny B, nome artístico da italiana Giovanna Bersola, uma das vozes mais marcantes da dance music made in Italy. Em seguida veio a britânica  Sandy Chambers emprestar sua voz ao projeto nas músicas "I Don't Wanna Be a Star" (de Francesco Bontempi, Antonia Bottari e Ivana Spagna, 1995) e nas regravações de "Baby Baby" (de Francesco Bontempi e Antonia Bottari, 1991), " I Gotta Be Dancin' " (de Malcolm Anthony, 1977) e "Try Me Out" (de Frencesco Bontempi, Giorgio Spagna e Annerley Gordon, 1991). De alguns anos pra cá, Olga de Souza passou a usar sua própria voz em shows ao vivo.
Além de Corona, Jenny B. participou como cantora em outros projetos da dance music, como Playahitty no qual gravou "The Summer Is Magic" (de Emanuele Asti e Stefano Carrara, 1994) e "1,2,3! (Train With Me)" (de Emanuele Asti, Stefano Carrara e Francesco Pini, 1995), Nevada com "Take Me To Heaven" (de Giordano Trivellato, Giuliano Sacchetto e Roberto Signorelli, 1994) e Red Velvet com "Lady Don't Cry" (de Giorgio Spagna, 1994). Já a Sandy Chambers participou de inúmeros projetos como Jinny (representado no videoclipe e na capa do single pela modelo Carryl Varley) em "Wanna Be With You" (de Alessandro Gilardi, Claudio Varola, Riccardo Romanini e Walter Cremonini, 1995), Netzwerk com a regravação de "Send Me An Angel" (David Sterry e Richard Zatorski, 1983), Baby Roots com  "Gimme Some" (de Harry Wayne Casey e Richard Finch, 1975) gravada originalmente por Jimmy "Bo" Horne, Sasha em "I Want My Freedom" (de Morris Capaldi e Sandy Chambers, 1995) e Sandy (projeto que leva o nome da própria cantora que por fim o representa) com "Bad Boy" (de Roberto "Robyx" Zanetti e Sandy Chambers, 1995). Jenny B e Sandy Chambers também participaram do projeto JK (representado pela modelo polonesa Marta Simlat). Nele a primeira gravou os sucessos "You Make Me Feel Good" (1992) e "You And I" (1994) (ambas da autoria de Larry Pignagnoli e Davide Riva) e a segunda o sucesso "My Radio" (de Annerley Gordon, Davide Riva e Paul Sears, 1995). Eu já fiz uma postagem aqui sobre o projeto JK cuja farsa foi desmascarada pelo pequeno deslize da Marta Simlat em um show. (clique aqui). 

A cantora italiana Jenny B 


A cantora britânica Sandy Chambers


 

 

Fontes:


E é ai que a gente se pergunta: Por que os produtores não deixavam as garotas que assumiam a frente dos seus projetos cantarem? Afinal, Olga Souza, T-Seven e Sannie Carlson cantam tão bem, não é?



Que tiro foi esse que tá um arraso?

Capa do single "The Rhythm Of The Night" (DWA, Dance World Attack, 1993) do projeto Corona.


A resposta que é uma informação pra lá de interessante eu peguei do Daniel Tévez, do canal Coisa de Velho (YouTube) no vídeo sobre Whigfield (clique aqui). O processo é simples e genial: os produtores selecionavam algumas cantoras, gravavam muitas músicas com elas e as lançavam em curto período de tempo. Quando uma dessas músicas fazia sucesso estrondoso, corriam pra colocar uma pessoa de fisionomia mais atraente para o público jovem no palco, um rosto para representar o projeto. Enquanto no sistema comum se lançava uma música de um cantor e se esperava pra ver se daria certo, na eurodance/italodance lançavam dez, quinze músicas com uma mesma cantora e uma dessas músicas sempre fazia sucesso. É como se estivesse atirando pra todos os lados e um desses tiros acertasse o alvo. Tanto que a maioria desses projetos tem o primeiro single lançado com capas com imagens aleatórias, sem nenhum rosto de modelo, ator/atriz ou cantor/cantora, como este do "The Rhythm Of The Night" do Corona na foto acima.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Relembrando a adolescência 07 - Sobre as músicas "You and I" (1994) e "My Radio" (1995) e a verdade por trás de J.K.


Marta Simlat, a moça à frente do J.K.

Hoje eu vou falar de duas das inúmeras músicas eurodance que marcaram a minha (pré)adolescência: "You and I" (de Larry Pignagnoli e Davide Riva, 1994) e "My Radio" (de Annerley Gordon, Davide Riva e Paul Sears, 1995), ambas de J.K..
J.K. é um projeto musical criado pelos produtores italianos Alfredo Pignagnoli, conhecido como Larry Pignagnoli, e Davide Riva e representado nos palcos e nos videoclipes pela louraça Marta Simlat.
Em 1992, Marta Simlat saiu de sua terra natal, Cracóvia, cidade da Polônia, para dar continuidade à sua carreira de modelo na Itália. Em pouco tempo, Marta foi descoberta pelos produtores Larry Pignagnoli e Davide Riva, os mesmos da cantora dinamarquesa Whigfield. Marta Simlat assinou o contrato e fez um grande sucesso com o seu primeiro single, "You Make Me Feel Good" (de Larry Pignagnoli e Davide Riva, 1992).
Seu terceiro single, "You and I", foi um sucesso absoluto em 1994 e foi incluído em vários CD's de compilações de dance music no mundo inteiro, inclusive "As 7 Melhores da Jovem Pan Volume 1" (Paradoxx Music, 1994) no Brasil. Em seguida, foi "My Radio", outro que foi sucesso e teve várias remixagens, inclusive a chamada "70's Mix" que, como o próprio nome diz, tem um arranjo (muito bem produzido por sinal) à disco da década de 1970. "My Radio" com esta mixagem setentista integrou-se na trilha sonora internacional da novela "Quem É Você" (1996) da Rede Globo.



Capa dos singles "You and I" (foto acima) e "My Radio"

Não era a Marta que cantava?

Em uma apresentação sua ao vivo em um programa de TV, percebia-se que Marta Simlat estava dublando quando ela se esqueceu de desligar o microfone no início da música "My Radio". Sua verdadeira voz naquela hora foi revelada, o que comprovou que ela não era intérprete de nenhuma das músicas de J.K.. Na verdade, as vozes de J.K. são da italiana Giovanna Bersola, a Jenny B. e da britânica Sandy Chambers, ambas as que emprestaram sua voz também à brasileira Olga Souza no projeto italiano Corona, e mais a barbadense Zeeteah Massiah. Jenny B., a voz conhecidíssima do hit "The Rhythm Of The Night" (de Peter Wilfred Glenister, Michael Patrick Gaffey, Giorgio Spagna, Annerley Gordon e Francesco Bontempi, 1993) em Corona foi a intérprete de "You Make Me Feel Good" e "You and I", enquanto Sandy Chambers é a dona da voz em "My Radio". As dublagens em videoclipes e shows ao vivo foram realizadas pela Marta Simlat, que também aparecia na capa dos singles. Mais um projeto musical a engrossar a lista das farsas da musica pop depois de Milli Vanilli, Technotronic e C+C Music Factory. Com o propósito de impulsionar a música do gênero dance para o sucesso mundial, naquela época em alguns casos era comum usar rapazes e moças com uma aparência física mais atraente para dublar cantores com vozes excepcionais.
Logo após o último single oficial, "You Got Me Dancing" (de Daniela Galli, Marco Soncini e Paul Sears) em 2000, Marta Simlat desapareceu dos olhos do público e deixou J.K., certamente devido às provas apresentadas de dublagem.
Enfim. Sendo farsa ou não, as ótimas músicas de J.K. marcaram a década de 1990.

Fonte: Wikipédia (em inglês)


Jenny B. (Giovanna Bersola). Além de Corona e J.K., Jenny B. participou como cantora em outros projetos da dance music, como Playahitty no qual gravou "The Summer Is Magic" (de Emanuele Asti e Stefano Carrara, 1994) e "1,2,3! (Train With Me)" (de Emanuele Asti, Stefano Carrara e Francesco Pini, 1995) e Red Velvet interpretando "Lady Don't Cry" (de Giorgio Spagna, 1994).


A cantora Sandra "Sandy" Chambers é britânica e se mudou para Itália em 1992. Em Corona, ela foi dona da voz na regravação de "Baby Baby" (de Francesco Bontempi e Antonia Bottari, 1991) e, em J.K., da música "My Radio".


You And I
Escrita por Larry Pignagnoli e Davide RivaInterpretada por J.K. (voz principal: Jenny B.)
(P) 1994 X-Energy Records, Itália




My Radio
Escrita por Annerley Gordon, Davide Riva e Paul Sears
Interpretada por J.K. (voz principal: Sandy Chambers)
(P) 1995 X-Energy Records, Itália




"My Radio" (70's Mix)


domingo, 10 de dezembro de 2017

"TV Dance" - Paradoxx Music (1995)


Rhyme to the rhythm, come on feel the rhythm!
There's a rhythm that rhymes that rock the whole time.

(trecho em rap da música "Santa Maria")

Esta semana dei de cara com um vídeo-áudio do CD completo do "TV Dance" (Paradoxx Music, 1995) no YouTube. Fiquei empolgada, porque eu, aos 13 anos, quando este álbum foi lançado, para a minha infelicidade, não cheguei a ter este CD, mas uma amiga que o tinha o havia emprestado pra mim. Bendita seja a internet, não é? E graças a ela, à internet, que afoguei essa minha frustração. Dizer que o CD é ótimo é pouco, porque, em plena febre da dance music europeia da década de 1990 no Brasil, o volume 1 do "TV Dance", assim como os outros CD's do mesmo gênero musical lançados pela Paradoxx Music, vendia feito água para milhões de jovens. Voltei ao amável ano de 1995, a época da minha saudável adolescência! ♥ 😁
"TV Dance" foi lançado nos formatos LP, K7 e CD pela Paradoxx Music, gravadora brasileira responsável por introduzir a Dance Music europeia no Brasil em meados dos anos 1990 e que encerrou suas atividades em 2005.



No mesmo ano em que a internet se tornou comercial (só que em lares mais privilegiados onde tinham um computador), "TV Dance" foi o primeiro CD a conter um videoclipe estilo CD-ROM, até então inédito no Brasil. Quem tinha este CD se desesperava, já que, se vacilasse e deixasse reproduzir a primeira faixa, a que é reproduzida apenas no computador, no aparelho de som, os ruídos que iriam ocorrer poderiam danificar as caixas acústicas, como alertava na contracapa do CD. Para o equipamento de áudio, bastava pular para a faixa 2, a música "Tell Me" do grupo italiano Tenessee. 
A faixa interativa em questão era o videoclipe de "Santa Maria" (Kirsti Johansen, Kjetil Røsnes, Michael Stock e Matt Aitken, 1995) da Tatjana Šimić (ou simplesmente Tatjana), a cantora e modelo croata-holandesa, hoje com 54 anos, que foi onipresente nas edições holandesas e alemãs das revistas Playboy nas décadas de 1980 e 1990 (leia a mini-biografia de Tatjana clicando aqui). A música foi inicialmente projetada para o mercado europeu, mas, graças à releitura da cantora e modelo inglesa Samantha Fox para o Reino Unido e Estados Unidos, "Santa Maria" se tornou popular, embora o extremo sucesso mundial aconteceu mesmo com a versão original da Tatjana. O formato áudio de "Santa Maria" está na terceira faixa do CD. 


Carlos Oliva Y Los Sobrinos resgatam uma música que seria um dos clássicos do pop hispanofônico: "Macarena", gravado originalmente pelo duo espanhol Los Del Río em 1992.  
 Logo depois de emplacar com "Saturday Night" (de Larry Pignagnoli e Davide Riva, 1993), o projeto Whigfield representado pela dinamarquesa Sannie Carlson que apenas dublava a voz de Ann Lee, nome artístico dea cantora e compositora inglesa Annerley Gordon, vem com "Sexy Eyes", outro mega sucesso mundial
O grupo Playahitty, liderado pela italiana Jenny B, nome artístico de Giovanna Bersola, e o mesmo de "The Summer Is Magic" (de Emanuele Asti e Stefano Carrara, 1994) marca presença em "TV Dance" com "1,2,3 (Train With Me)". Jenny B foi a cantora produzida para emprestar sua voz à brasileira Olga Souza, líder do projeto eurodance Corona que a dublava nos palcos o seu principal hit  "The Rhythm Of The Night"  (de Francesco Bontempi, Annerley Gordon, Giorgio Spagna, Peter Glenister e Mike Gaffey, 1994), da mesma forma de como foi feito o duo alemão Milli Vanilli. A também italiana Emanuella Gubinelli, artisticamente conhecida como Taleesa vem ardente com "Burning Up", Serena com a viajante "Ridin' High" e Los Locos, dupla formada por Paolo Franchetto e Roby "Borillo" Boribello, dando um show de humor com a regravação de "El Tiburón" (1993) do grupo dominicano-americano Proyecto Uno com direito a citações em espanhol de alguns chavões da música pop mundial, como "¡oh, ahí está!" que vem do "Whoomp! There it Is" (de Stephen Gibson e Cecil Glenn, 1993) sucesso do grupo Tag Team cujo bordão que leva o nome do rap foi decodificado no Brasil para "uh, tererê!".
Não faltam também as releituras italianas com nova roupagem como "Diana" (de Paul Anka, 1957) de Andrew Sixty, trio conhecido por regravar clássicos dos anos 1950 e 1960 na versão dance, "No More 'I Love You's'" da Annie Lennox em versão reggae, "Back For Good" da boy band  britânica Take That e "Zombie" do grupo The Cramberries, esta cuja aura sombria em um protesto contra a violência entre extremistas protestantes e católicos na Irlanda do Norte na época do conflito norte-irlandês se perdeu com o aspecto dançante, eletrizante e mais bubblegum (chiclete, grudento) do quarteto A.D.A.M com a participação de "Amy", pseudônimo para a cantora Melody Castellari neste projeto. Sem falar nas versões fake de "Dub I Dub" do duo dinamarquês Me & My formado pelas irmãs Susanne e Pernille Georgi e a única lenta do CD, "La Solitudine" da Laura Pausini, interpretadas por cantoras com nomes bem curiosos: Minie Mine e Lara P., respectivamente. Em seus álbuns de compilações era comum a Paradoxx produzir seus cantores para regravarem músicas de artistas estrangeiros contratados por gravadoras multinacionais e se identificarem com nomes parecidos com os dos intérpretes originais (neste caso, a dupla Me & My é da EMI/Universal Music e Laura Pausini, da Warner Music). Um erro nos créditos do CD assinala o compositor de "La Solitudine" com o nome da intérprete original (Laura Pausini) ao invés de Federico Cavalli, Angelo Valsiglio e Pietro Cremonesi que seriam os verdadeiros autores. 
No formato LP não contem as faixas "El Tiburón" e "La Solitudine" (talvez por um motivo óbvio: não coube), contudo, no formato CD, ambas foram incluídas como faixas bônus.

Veja também: as farsas da eurodance dos anos 1990

"TV Dance"
Vários Artistas
(P) 1995 Paradoxx Music
Ouça o CD na íntegra:

01- Tenessee - "Tell Me"
escrita por Giada Masoni e Riccardo Menichetti
Voz principal: Giada Masoni
(P) 1995 X-Energy Records, Itália
https://www.discogs.com/Tenessee-Tell-Me/release/250553

02- Tatjana Šimić -  "Santa Maria"
escrita por Kirsti Johansen, Kjetil Røsnes, Michael Stock e Matt Aitken
(P) 1995 Mega Records (hoje Edel Music), Dinamarca
https://en.wikipedia.org/wiki/Santa_Maria_(Tatjana_song)

03- Carlos Oliva & Los Sobrinos - "Macarena"
escrita por Rafael Ruiz Perdigones  e Antonio Romero Monge

04- Whigfield - "Sexy Eyes"
escrita por Annerley Gordon, Alfredo Larry Pignagnoli, Davide Riva, Paul Sears
Voz principal: Annerley Gordon
(P) 1995 FLEX Records (Dinamarca) / Systematic Records - London Records (Inglaterra)

05- Minie Mine - "Dub-I-Dub"
escrita por Me & My (Susanne Georgi e Pernille Georgi)

06- Andrew Sixty - "Diana"
escrita por Paul Anka

07- Playahitty - "1-2-3 (Train With Me)"
escrita por Emanuele Asti, Francesco Pini e Stefano Carrara
Voz principal: Jenny B.
(P) 1995 Zyx-Music (Alemanha) / Wicked & Wild Records, Supermelody (Itália)
https://www.discogs.com/Playahitty-1-2-3-Train-With-Me/release/213457

08- Betty Blue - "No More 'I Love You's'"
escrita por David Freeman e Joseph Hughes
Voz principal: Beatrice Baccarini
(P) 1995 Mister Owl Recordings, Itália

09- East Side Beat feat. Max - "Back for Good"
escrita por Gary Barlow
(P) 1995 Team Records, Itália
https://www.discogs.com/East-Side-Beat-Feat-Max-Back-For-Good/release/5053771

10- A.D.A.M. feat. AMY - "Zombie"
escrita por Dolores O' Riordan
Voz principal: Melody Castellari
(P) 1995 Central Station Records, Austrália / Reflex Records (Itália)
https://www.discogs.com/ADAM-Featuring-Amy-Zombie/release/59692

11- Serena - "Riding High"
escrita por Mike Stock e Matt Aitken
Vozes principais: Miriam Stockley e Einstein (rapper)
(P) 1994 Love This Records, Inglaterra

12- Taleesa - "Burning Up"
escrita por Giordano Trivellato e Giuliano Sacchetto
(P) 1995 TIME (Itália)
https://www.discogs.com/Taleesa-Burning-Up/release/811260

FAIXAS BÔNUS

13- Los Locos - "El Tiburón"
escrita por John G. Wilson e Nelson Zapata
(P) 1995 ZYX Music, Alemanha
https://www.discogs.com/Los-Locos-El-Tiburon/release/1772245

16- Lara P. - "La Solitudine"
música de Angelo Valsiglio e Pietro Cremonesi
letra de Federico Cavalli e Pietro Cremonesi





Festa de Lançamento do "Clube do Samba" (Fantástico, 1979)

"Meninos da Mangueira" - Ataulpho Jr. e Diogo Nogueira no programa "Samba da Gamboa" na TV Brasil