Chegou a época do Natal em que muitos de nós nos sentimos felizes por nos deixar levar pelas belas decorações, clima de inocência, reunião de amigos e familiares e celebrações religiosas (e, no meu caso, pelos especiais do meu
muso Roberto Carlos também. Risos). Porém, nesta época nem tudo são luzes. Seja por qual for o motivo, a angústia e a tristeza nos pesam por dentro e esse sentimento no período das festas é bem mais comum do que se imagina. Algumas músicas natalinas mais populares retratam essa realidade. Vamos a elas!
Aqui no meu
blog eu fiz uma postagem (
clique aqui) sobre a canção
"Boas Festas" (1933) (aquela do "anoiteceu / o sino gemeu / e a gente ficou / feliz a rezar") que muitos cantam sem ao menos saber do que ela se trata. "Boas Festas" mostra como eram os natais do próprio compositor Assis Valente (1911-1958) e dos brasileiros mais necessitados financeiramente, uma situação bem atemporal. Ela retrata que nem todos têm o privilégio do consumismo e realização dos seus sonhos, resultando em angústia e frustração em pessoas menos favorecidas: "eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel / bem assim felicidade eu pensei que fosse uma brincadeira de papel / já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem".
Ainda falando em desigualdade social, o rei Roberto Carlos lembra as famílias carentes e sem mesa farta na música cristã
"Meu Menino Jesus" (de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1998), na qual ele canta: "te peço, Menino Jesus, ponha na mesa de alguém / o que esse alguém sempre quis e não tem / felicidade também".
A canção natalina americana
"The Little Boy That Santa Claus Forgot" (de Michael Carr, Tommie Connor e Jimmy Leach, 1937) gravada primeiramente por Vera Lynn (1917-2020) e eternizada na voz de Nat King Cole (1919-1965) descreve um garotinho esquecido pelo Papai Noel, como o próprio título diz. Enquanto outras crianças se divertem com seus brinquedos novos, o que faz com que ele sinta inveja delas, o menino está triste e solitário e, no final, a letra revela que o menino não tem pai (acredita-se que o pai morreu), dando a impressão de que este seria o verdadeiro motivo pelo qual ninguém havia comprado um brinquedo para ele. Uma música semelhante até no título é a brasileiríssima
"Papai Noel Esqueceu" (de Herivelto Martins e David Nasser, 1956) interpretada lindamente por Ângela Maria (1929-2018), a eterna Rainha do Rádio e
lady "Babalú" (de Margarita Lecuona, 1939) em dueto com João Dias (1927-1996).
"Sofrências" de Natal? Também existem. E na levada do samba-canção, um dos meus estilos musicais preferidos, que são "
Amargo Presente" da autoria de Cartola (1908-1980) lançada postumamente em 1983 pela Beth Carvalho (1946-2019) e
"Meu Natal" (1961) de Lupicínio Rodrigues (1914-1974) gravada por Jamelão (1913-2008), esta que fala de um homem que ao longo de sua vida teve muita sorte, mas que esta sorte foi rompida depois que o destino o separou de seu grande amor. E ele, inconformado, conclui: "sabe o que o Papai Noel me trouxe este ano? / Foi um cesto, foi um cesto / com tristeza e desengano".
"Please Come Home for Christmas" (de Charles Brown e Gene Redd, 1960) do cantor, compositor e pianista Charles Brown (1922-1999) que foi regravada por Kelly Clarkson, CeeLo Green e bandas Bon Jovi, Eagles e Hanson fala de alguém solitário que se entristece por não ter ninguém para lhe desejar boas festas e anseia para que uma pessoa em especial passe o Natal com ele em casa.
Dando sequência à solidão natalina, outra postagem que eu fiz aqui (
clique aqui) é sobre a canção
"Santa, Can't You Hear Me?" (de Aben Eubanks e Kelly Clarkson, 2021) da cantora Kelly Clarkson em dueto com Ariana Grande. Ela fala sobre uma moça que rejeita presentes materiais e pede ao Papai Noel alguém para amar, mas esse alguém não chega.
A música que eu citarei a seguir não é nada natalina, mas que, a meu ver, merecia ser lembrada na época graças ao conteúdo da letra. "Azul da Cor do Mar" (1970) do Tim Maia (1942-1998) com a participação de ninguém menos que Rildo Hora no solo de gaita (own, que lindo! Risos) é uma história sobre alguém que vê os outros que, ao contrário dele, têm uma vida próspera e sonhos concretizados, uma situação semelhante à das músicas "Boas Festas" e "The Little Boy That Santa Claus Forgot", mas ele, embora profundamente triste e frustrado, se conforma com a realidade: "ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir / tenho muito pra contar e dizer que aprendi / que na vida a gente tem que entender / que um nasce pra sofrer / enquanto o outro ri". Em seguida, aconselha aos que estão na mesma melancolia a cumprir suas missões que são "achar razão para viver" e ter "um motivo pra sonhar'', ou seja, como uma mensagem de Natal, mesmo que nada aconteça como nós queremos tanto e por mais tristeza que a vida traga, deixar que Jesus Cristo, a razão certa e maior do Natal, nasça em nossos corações.